CARTA AO PAI
Prezado Francisco Dias (vulgo meu pai),
Sim, uma Carta ao Pai, um tanto quanto menos melancólica do que aquela famosa do Kafka. Infelizmente, não posso estar pessoalmente para lhe conceder os parabéns e te abraçar. Porém, nestes tempos contemporâneos, palavras digitais chegam facilmente aí no Alabama como você pode constatar.
Ainda estou em dúvida se coloco os assuntos em ordem cronológica ou de importância. No fim, decidi por não usar nenhuma ordem e escrever à deriva. Finalmente vou me mudar. Como você bem sabe, desde minha formatura, há mais de um mês e lá vai fumaça estou perambulando entre um albergue em botafogo, um colchão inflável na casa de um amigo e um sofá da sala de outro. Mas agora vou me mudar. Para um apartamento considerado bom que vou dividir com um amigo. O condomínio tem toda a infra-estrutura que o nosso tempo moderno julga essencial: hall de entrada, academia, salão de jogos, salão gourmet e segurança. Da sacada dá para ver a discrepância do Rio, pois tem uma vista para a piscina do prédio, belíssima, com um morro ao fundo, não tão belo assim. No morro há pequenas casas que juntas formam uma favela qualquer no horizonte. As plantas são artificiais, a cascata é artificial... Espero que minha felicidade lá, não seja. Esta mudança é o que tem me ocupado mais o tempo, tirando o trabalho, obviamente. Aliás, este está indo de vento em polpa (pegou o trocadilho? ã? ã?). Assim que me mudar, poderei fazer um planejamento melhor do meu futuro em curto prazo: nos 30 meses de contrato que virão, tenho que voltar a fazer francês (útil para o trabalho e para mim, pois estudar línguas é muito bom); fazer o TOEFL (inglês); entrar numa academia ou algum esporte; planejar uma pós (mestrado técnico em energia eólica ou MBA em gerenciamento de projetos); música; viagens; Sobre as viagens, já vou começar a juntar, pois nas minhas primeiras férias vou te visitar. O que deve acontecer depois de março/2010. Agora parece longe, mas logo chega. Agora no passado: - Eu com 9 anos, nas nossas férias em Natal-RN. Viajamos de noite, e como bom goiano ainda não tinha visto o mar. De manhã indo para a praia, adormeci dentro da rural do Loro, ex-marido da minha tia Almira. Devo ter ficado a manhã toda lá, dormindo o sono das crianças. Lembro que acordei e estava trancado no carro. Olhei para um lado, olhei para o outro e, de repente, antes de eu começar a me desesperar você apareceu e abriu a porta. Perguntei como você sabia que eu tinha acordado, afinal a barraca não estava tão perto do carro assim. Aí você me disse que tinha “sentido” que eu tinha acordado. Amor paternal deve ter dessas coisas, não é? Este acontecido é uma das lembranças mais fortes que tenho da gente como família, não sei se já tinha te dito isto. Mesmo porque você bem sabe, depois dessa viagem, veio o divórcio e aquela coisa toda... e a partir daí a família ficou meio zoneada. Vi hoje o primeiro jogo da final do carioca. Infelizmente, seu time verde-e-grená não está presente, mas pode deixar que estou aqui secando o mengo. Tirei o dia para ler também, há tempos que não fazia isto. Estou lendo Leite Derramado, do Chico. Ä primeira vista, não está no nível de Budapeste (que é do caralho), mas talvez me surpreenda com o desfecho. Estou devendo te mandar livros, né? Logo pagarei. Ah, isto eu acho que já tinha escrito: Uma dedicatória sua, num livro do Veríssimo (Sexo na Cabeça) a qual sempre recorro: “- Filho, na vida, faça tudo o que lhe der prazer!!!”. Bem, juro que estou seguindo à risca. O problema é que, às vezes, elas não concordam.
Feliz aniversário. Por enquanto, fica só esta carta como presente. Postada aqui no blog, para tornar público aos meus milhões de leitores todo o amor e orgulho que tenho de você.
Atenciosamente, Eduardo Dias (vulgo seu filho).
P.S.: Continuamos sempre conectados, mesmo você não “sentindo” mais quando eu acordo ou adormeço.
Escrito por £duardo Vi¢tor Di@s às 20h34
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